Aceitando a realidade - ou não
- Ana Luísa Vahl Dias

- 10 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de mai.
Aceitar a realidade. Foi isso que me instruíram a vida toda.

Os seres humanos são animais com uma alta capacidade de inventar e acreditar em suas invenções. E mais do que isso, de compartilhar a crença em relação às mais variadas coisas inventadas. Religião, política, países, linguagem, cultura, economia, sociedade. Tudo o que causa dor e ansiedade ao ser humano moderno não passa de invenções que viraram convenções amplamente aceitas como verdades absolutas.
Quando eu estava no ensino médio, em uma aula de física, o professor explicou o valor da gravidade, ou seja, quanta força ela aplica em cada pequena partícula de massa existente na terra, atraindo-a ao centro do globo. A força da gravidade é de 9,8 metros por segundo. Quando perguntamos como foi possível medir essa força, o professor rapidamente respondeu: “esse número foi convencionado. Não medido, mas aceito como regra.”
Se até a matemática trabalha com uma série de convenções que são acordadas e aceitas para facilitar a condução do processo matemático, o que sobra para o resto das questões humanas, tão mais passíveis de criatividade e invenção?
Atualmente, enquanto escrevo, o planeta terra tem mais de 8,3 bilhões de pessoas habitando suas mais variadas áreas, de cidades a desertos, de florestas a regiões árticas. São 195 países, 6 ou 7 continentes (porque nisso não há consenso, acredita?), e mais de 7000 línguas vivas no mundo. Como eu sei disso? Google, a maior empresa do mundo em volume de dados, acesso à informação e capacidade de indexação do conhecimento humano (convencionamos enquanto sociedade do século XXI que é isso aí, mesmo que o Google em si não seja nada além de um monte de gente em volta de uma marca enquanto evoluímos em hardware).
São mais de 9.000 profissões catalogadas mundialmente, 4.300 religiões e mais de 2,5 milhões de cidades e vilas. Tudo isso obra do ser humano e sua infinita capacidade de inventar. Inventamos palavras, unidades de medidas, costumes, leis, organizações sociais, preconceitos, hierarquias e tudo mais que delimita e conduz a existência. E sabe-se lá quantos por cento da população existente nesse exato momento percebe que os seus dias e dilemas não passam de invenções complexas, seja lá de onde elas venham.
O padrão é aceitar invenções e convenções como realidade, somos ensinados assim. O lugar que você nasceu, as regras do jogo, os estágios óbvios da vida, a sua obrigação com a sua família. O que pode e o que não pode. O que você deve fazer, como deve fazer. Há um plano traçado. Viver, morrer e, entre esses dois polos, realizar alguns movimentos obrigatórios. Trabalhar, ter família, pagar as contas.
Cabe a você aceitar a realidade. Sua família é disfuncional, agressiva e inadequada, mas é sua família, você tem a obrigação de mantê-la como prioridade nos seus dias. Sua religião fere profundamente a liberdade de existir, mas se Deus quis assim, assim deve ser. Sua cidade não tem espaço para evolução, é altamente enraizada em costumes e valores antiquados, mas você nasceu aí, é seu destino.
Ao mesmo tempo, as pessoas te tratam mal, você não se sente realizado, mas ainda assim, o problema deve ser você, que não tem disciplina para aceitar a realidade e fazer o que precisa ser feito.
É aqui que entra a dúvida central dessa reflexão: o que é realidade? Quais argumentos você usa para se convencer a ficar parado no mesmo lugar só aceitando o que a realidade te oferece?
Poderíamos discorrer sobre diversos temas, como filósofos faziam na Grécia. Debater sobre o tema até encontrar provas lógicas de que aceitar a realidade é a coisa mais tola que o ser humano pode fazer. A realidade não passa de uma convenção que faz o ser humano viver de forma cíclica, sem nunca sair da própria matrix.
Se eu pudesse deixar uma sugestão pra humanidade, com certeza eu diria para não aceitar a realidade, pelo menos não antes de questioná-la. Se você pode questionar e se perceber concordando com ela, ótimo. Mas se você reproduz comportamentos, falas e atitudes, não porque as escolheu, mas porque “é como as coisas são”, eu sinto em informar que a probabilidade de você ter pouquíssimos pontos na linha entre vida e morte é gigante.
Não é como se fosse necessário construir algo do zero. No início desse texto eu trouxe uma quantidade ínfima de informações que já deixam claro que existem várias realidades paralelas dentro do que chamamos de planeta terra. Você só precisa levantar sua cabeça e olhar as outras oportunidades que existem ao seu redor. Se ela existe, tecnicamente, você deve ser capaz de alcançá-la.
Não acho que a solução seja ser um rebelde sem causa, mas sim se apropriar das próprias convenções. Ter repertório o suficiente para se sentir confiante sendo dono da própria vida sem se limitar. Entender que o céu é o limite, literalmente porque o céu nada mais é do que uma camada de gás que funciona como uma porta aberta para o infinito. Céu e universo e terra, tudo uma coisa só. Eu e você? Átomos que um dia já foram parte de uma estrela por aí. A água que eu bebo hoje já esteve em plantas, rios e em você. Tudo é parte da mesma coisa. Os mesmos átomos, organizados de formas diferentes, dão origem a todas as coisas. E você aí se sentindo menor ou maior do que as pessoas ao seu redor. Vocês só são diferentes.
Olhar para o macro ajuda a entender a realidade como algo maleável. Infelizmente, a liberdade é tão assustadora para os humanos que nós acabamos reduzindo as possibilidades à uma rotina e uma série de convenções que nos dite o que fazer. Muitas vezes quando, de fato, escolhemos o que acreditamos e queremos realizar, não sustentamos as consequências. Somos levemente covardes e é mais fácil dizer que “as coisas são assim”, e responsabilizar qualquer coisa externa pelo que a sua vida se torna todos os dias, do que dar conta das consequências das próprias escolhas.
É óbvio que o modelo de sociedade construído, além de nos conduzir para lugares sem sentido, é altamente beneficiador de pessoas exploradoras que encontraram mecanismos para dificultar qualquer possibilidade de saída dessa matrix criada para explorar a massa em prol do benefício de poucos.
E talvez seja por isso que eu gostaria de deixar essa sugestão para a humanidade. Eu não quero relações tóxicas, empregos exploradores, mais dias cinzas do que azuis. De fato, prefiro sofrer tentando do que aceitando a realidade. Prefiro morrer antes da hora do que ter dois ou três pontos entre a vida e a morte.
Se aceitar a realidade e “aprender a jogar o jogo” é o caminho para o sucesso, eu prefiro fracassar e continuar conectada com a minha visão de existir. E se eu pudesse deixar mais uma sugestão, seria: se rebele e crie quantas realidades você quiser até achar uma que te traga mais sentido de estar aqui.
Não se prejudique, construa realidades que te beneficiam, mas não aceite qualquer coisa que te digam por aí.
Somos só poeira de estrela, não dê tanta importância aos outros - nem a você.






Comentários